Entrevista 9 Mai 2012, 10:38h
Sílvia Frazão é eleita na Assembleia Municipal de Benavente há 30 anos
“Samora Correia continua a viver um bairrismo assustador”

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Nasceu em Santarém, mas escolheu Samora Correia, concelho de Benavente, para viver depois de se reformar. Sílvia Frazão, de 85 anos, tirou o curso de farmácia numa altura em que as meninas estavam destinadas a serem donas de casa. A sua carreira de investigadora permitiu-lhe conhecer quase todos os países do mundo. Há 30 anos que integra a Assembleia Municipal de Benavente. Defende que as mulheres devem estar na política pelas suas capacidades e não por causa de quotas.

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Em menina costumava ir a Samora Correia, concelho de Benavente, visitar a avó materna. Nascida e criada em Santarém, Sílvia Frazão, de 85 anos, só se radicou há 17 anos em Samora depois de se aposentar de uma carreira como investigadora na área da química terapêutica. Antes costumava passar os fins-de-semana ou períodos de descanso na terra. Hoje diz que o bairrismo da terra piorou ao longo dos anos. Filiou-se no Partido Comunista em 1974. Na última sessão comemorativa do 25 de Abril que se realizou na Câmara Municipal de Benavente recebeu uma medalha municipal de mérito grau ouro pelos 30 anos de serviço prestado na assembleia municipal.

Sílvia Frazão gosta da terra que escolheu para viver e das suas gentes. Mas não se coíbe de criticar o “bairrismo doentio” que ainda se vive. “Não é um bairrismo de defender a terra, mas de clãs, de provar que Samora é melhor que o vizinho”, explica. Dá como exemplo a Semana Taurina e a Feira Anual que decorreram ao longo das duas últimas semanas, com largadas de toiros quase todos os dias, numa altura de crise. Defende que os samorenses deveriam ser mais modestos a expressarem as suas tradições. Este bairrismo reflecte-se depois nas próprias assembleias municipais onde a autarca acredita que se perde muito tempo a discutir os “buracos da rua”.

“O Ministério da Educação deve cerca de 400 mil euros à Câmara de Benavente. Temos crianças que estão a ir para a escola sem tomar o pequeno-almoço, mas nós passamos o tempo a discutir um passeio que está escangalhado”, aponta. O “provincianismo” que ainda se vive no concelho, não permite na sua opinião que se trate de assuntos mais abrangentes. Há 30 anos na assembleia, Sílvia Frazão assume que pode votar uma proposta com a qual não concorde totalmente ou na qual se reveja, mas garante que nunca votou nem votará algo contrariada.

Discute a sua opinião nas reuniões de trabalho e se estiver em minoria, vota de acordo com o que o colectivo decidir, porque acredita que esse é o espírito que deve existir nos partidos. Não consegue compreender quando um vereador da oposição vota a favor de um proposta e depois os membros do seu partido na assembleia abstém-se ou votam contra. Também não gosta de ver pessoas a aceitarem um cargo sem saberem como desempenhar suas funções.

Os seis anos que passou, entre 1974 e 1980, como dirigente sindical dos investigadores científicos do Ministério da Indústria deu-lhe alguma tarimba para poder aceitar o cargo de secretária na assembleia municipal. Tratou logo de estudar todas as leis que regem este órgão deliberativo. Só aceitou mais tarde o cargo de presidente da mesa quando começou a ter mais tempo livre. Diz que políticos são todos os cidadãos. “Quando nascemos já estamos a ser políticos porque temos logo de lidar com uma família, uma sociedade”, explica.

Pai foi vice-presidente da Câmara de Santarém

Sílvia Frazão é filha de Francisco dos Santos Serra Frazão, que foi vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém entre 1923 e 1925. Republicano, Francisco Frazão chegou a ser preso e torturado pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) duas vezes. Na sua casa, em Santarém, onde nasceu e cresceu, era comum assistir a “brigas sujas” entre republicanos, monárquicos e padres. Sempre educada nos princípios da liberdade, o pai incentivou-a a estudar, ao contrário da maioria das mulheres da sua geração que estavam destinadas a cuidar do lar. Entrou aos nove anos no Liceu de Santarém, onde só existiam mais quatro mulheres. Quando chegou à Universidade de Lisboa para tirar o curso de farmácia, não teve qualquer problema em meter conversa com os rapazes já que vinha de uma turma com mais de 20.

O pai acabou por morrer quando estava a tirar o curso. Passou a ajudar a mãe que tinha uma pensão muito baixa. A morar em Lisboa, tinha de andar quilómetros a pé para dar aulas a meninos ricos porque não tinha dinheiro para os transportes públicos. Foi depois trabalhar para o laboratório de análises de uma empresa italiana sediada em Venda Nova. Tinha 53 anos quando tirou o doutoramento em França. Terminou a sua carreira de investigadora no Ministério da Indústria. Visitou quase todos os países do mundo em trabalho. Depois de se reformar foi morar para a sua casa de Samora Correia que mandou construir ainda antes do 25 de Abril, depois de uma partilha de bens. Tem também desempenhado desde 1996 as funções de representante da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), no conselho superior de estatística do Instituto Nacional de Estatística.

* Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE.

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