Entrevista 6 Jun 2012, 15:52h
António Saraiva é presidente da maior empresa agrícola nacional há três meses
“Só com um tractor nas mãos não se consegue fazer agricultura”

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António Saraiva, 49 anos, um engenheiro agrónomo de Lisboa, deixou uma empresa privada onde trabalhava há 21 anos para se tornar presidente da empresa de agricultura do Estado, Companhia das Lezírias. Mais do que deixar obra feita quer deixar marca no modo de gestão. Vai ser difícil igualar o resultado do antecessor, que conseguiu um milhão de lucro fruto da melhor colheita de cortiça, mas António Saraiva promete fazer o melhor. A privatização não está em cima da mesa e se alguma vez a Companhia for privatizada não será por falta de rentabilidade.

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Qual foi a sua primeira preocupação quando chegou à Companhia das Lezírias?

Conhecer as pessoas. Mesmo os que trabalham no campo. Para mim como gestor é fundamental. Na comunidade também havia muita gente a querer falar connosco. Depois de um período de interregno havia fome de contactos.

Pelas reacções percebeu que não era prática comum?

Não sei se era prática comum. O que senti foi que as pessoas gostaram deste primeiro contacto. Também sei que estão habituadas a uma certa rotatividade nas administrações.

Isso é negativo para a organização?

Alguma continuidade deveria ser assegurada. Mesmo que não fosse ao nível do presidente... O facto de ser uma empresa pública e de estar ligada ao poder político faz com que haja esta alternância sempre que há mudança de ciclo político.

O anterior administrador era amigo do ministro e por isso foi nomeado. Receia ser alvo de críticas por vir do privado?

O facto do antigo presidente ser amigo do ministro a mim não me choca…

É amigo da ministra?

Não sou amigo da ministra mas sou amigo do secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural (Daniel Campelo) e tenho muito orgulho nisso. Fizemos formação juntos e conhecemo-nos há muitos anos. A decisão foi da senhora ministra e perante os candidatos a escolha recaiu sobre mim. Fiquei orgulhoso e com vontade de começar com energia.

Estando numa situação confortável numa empresa não pensou duas vezes antes de aceitar o desafio?

Pensei quatro e cinco vezes em muitas outras coisas a partir do momento em que esta possibilidade aconteceu. Pesquisei informação e li relatórios da gestão anterior. O projecto pareceu-me tão aliciante para uma pessoa com a minha experiência profissional e formação académica que achei que era uma proposta irrecusável.

Que projectos pretende implementar?

Gostava de ser reconhecido não por qualquer obra em particular mas por deixar um modelo de funcionamento útil para uma gestão moderna da empresa com focalização nos resultados. Gostava que as pessoas conhecessem a Companhia das Lezírias pelos bons serviços que presta do ponto de vista agrícola, ambiental à comunidade e os contributos que dá ao nível da investigação científica.

Isso não tem sido feito?

Tem sido feito mas pode fazer-se mais. Há técnicas modernas que são hoje utilizadas em empresas públicas e privadas e que aqui por uma razão ou outra não têm sido postas em prática. É verdade que encontrei uma organização melhor do que esperava encontrar já que se tratava de uma empresa pública. Um dos grandes desafios do conselho de administração é melhorar o funcionamento das áreas de negócio para melhorar os resultados.

Os resultados da última administração já são muito positivos (lucro de um milhão de euros em 2011)…

Estes foram os melhores resultados de sempre. Um dos principais contributos para esse resultado foi a venda da cortiça. Colheu-se a maior mancha de montado que havia para colher e com a maior folha. Temos a maior mancha contínua de sobreiro do país com 6700 hectares. Sabendo que é impossível repetir os resultados do ano passado vamos tentar obter os melhores resultados possíveis. Temos 520 hectares de arroz que contribuíram também para os resultados do ano passado. Os rendeiros e as ajudas à produção têm também um peso significativo.

É inevitável que a Companhia passe para as mãos de privados?

Isso não está sobre a mesa.

Um privado não teria a capacidade de potenciar a actividade?

Aquilo que fazemos na maioria das áreas está ao nível do que melhor é feito por qualquer privado, senão acima. Se a companhia alguma vez for privatizada não será porque as coisas não são bem feitas mas por outros motivos.

Nem todas as gestões têm sido de excelência e inclusivamente alguns administradores foram afastados, como aconteceu com Vítor Barros.

Durante estes três meses já me foram referidos vários administradores. Alguns agradaram mais do que de outros. Não estou focalizado nas críticas. A ideia é que possamos desenvolver aquilo que as pessoas apreciaram.

“Temos dos melhores solos do país para cultivar”

O que fez com que a agricultura decaísse em Portugal?

A agricultura não decaiu só no nosso país. Na Europa não tem muitos exemplos de sucesso. Aqui na zona temos dos melhores solos para fazer agricultura no país. Temos água, estamos perto dos grandes centros e temos agricultores muito profissionais por questões de tradição, familiares e de formação. Os rendeiros e os agricultores da lezíria têm uma actividade económica lucrativa daí que a procura de terrenos seja elevada. Poderíamos estar melhor mas existem condicionantes.

Os apoios da União Europeia em vez de serem usados em algumas culturas foram aproveitados para a compra de jipes...

O problema aí não está na política mas em quem os utilizou. O destino de algumas ajudas não foi o mais correcto. A minha verdadeira preocupação vai para a revisão da Política Agrícola Comum (PAC). Existe alguma indefinição sobre o que vai ser o pós PAC. A orientação da União Europeia em relação à agricultura condicionará também algumas decisões a tomar a médio prazo na Companhia. Preocupa-me as ajudas ao arroz. É preciso que o Governo e os negociadores que estão em Bruxelas tenham os olhos bem abertos sobre as ajudas ao arroz.

Tem esperança de que agricultura volte a captar o interesse?

Acho que estamos novamente numa fase de regresso à agricultura. Está na agenda política e as pessoas por causa da crise no mundo produzem bens alimentares nas hortas. Em 2008 os preços dos produtos agrícolas atingiram preços históricos. Os fundos de investimento olharam muito para este sector agrícola. É uma área que deverá mostrar melhorias no futuro. Sabemos que há dificuldades mas em zonas produtivas com agricultores organizados com acesso aos mercados para escoamento dos produtos as condições são imbatíveis.

Sente-se ainda um pouco o estigma do agricultor, sobretudo entre os jovens…

Hoje em dia o jovem agricultor tem que ser uma pessoa com uma formação muito completa. Não é só saber o que se passa no campo mas conhecer todos os mecanismos de ajudas e de escoamento da produção. O agricultor tem que ser um especialista em várias áreas. Não pode ser só a pessoa que vive no campo e observa as plantas acrescer. Só com um tractor nas mãos não se consegue fazer agricultura.

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